segunda-feira, 30 de março de 2009

Kelly Clarkson - All I Ever Wanted

O cd que tirou o U2 do topo da parada Billboard.
Vencedora do American Idol de 2002, Kelly Clarkson segue a mesma linha de Pink, Kate Perry entre outras.
Essa cantora de voz forte traz em seu novo cd canções que são marcadas por refrões marcantes e uma bateria pesada, feito sob medida pra "bombar" nas festinhas adolescentes.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Sobre desertos

"Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto."
Fernando Pessoa

terça-feira, 24 de março de 2009

Sobre praias desertas

Uma vez eu li uma fábula infantil onde o conceito de céu mudava de acordo com cada uma das personagens. Não havia um único céu, mas um para cada pessoa.
A idéia de felicidade segue o mesmo princípio.
Luís Fernando Veríssimo escreveu que seu lugar ideal seria onde ele parasse o carro, pedisse uma coca-cola e o dono da venda respondesse: "Quê isso?"
A imagem de uma praia deserta habita o imaginário de muita gente, mesmo num país como o nosso. O portal Viaje Aqui tem uma reportagem com 10 praias desertas e o sugestivo subtítulo Os melhores pedaços do litoral brasileiro para encontrar... ninguém.

Antiguinhos, Paraty-RJ

segunda-feira, 23 de março de 2009

Radiohead - No Surprises

Nada a ver... mas foi assim que deu vontade de encerrar uma semana e começar a outra.


Download: Radiohead - No Surprises (5Mb)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sêneca e a vida

Acabo de ler um livro com as cartas de Sêneca a Lucílio, e apesar do infeliz título de "Aprendendo a Viver", que sugere sugere algo da seção de auto-ajuda quando na verdade é de filosofia, traz reflexões interessantes.

Lúcio Anneo Sêneca foi um dos mais célebres pensadores do Império Romano e um dos ícones do estoicismo. A escola estóica foi fundada em Atenas por volta de 300 a.C. e propunha a arte de "Bem Viver". Mas esse bem viver está longe de ser uma busca insaciável de prazer. Para o estóico tudo tem um motivo para ser e nós não podemos mudar isso. Assim, o ideal do estoicismo é a indiferença em relação a todas as emoções, o que se alcança pela prática da virtude. Os estóicos suportavam as adversidades com calma e dignidade.

Discordo de muitas coisas nas cartas de Sêneca, mas dois trechos ficaram rebatendo no pensamento:
"... a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte."

"... não nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente. Viver muito depende do destino. Viver plenamente, depende do teu espírito. Uma vida plena é longa quanto basta.
Que interessa os 80 anos daquele homem passados na inação? Ele não viveu, apenas passou algum tempo pela vida. Não morreu tarde, passou longo tempo morrendo.
Peço-te, Lucílio: que nossas vidas, como as pedras preciosas, valham, não por sua duração, mas por seu peso."

quarta-feira, 18 de março de 2009

Circo Brasil

A foto aí abaixo está na capa da Folha de São Paulo, de hoje. Mostra os efeitos da enchente decorrentes das últimas chuvas.
Agora olha a manchete do caderno "Cotidiano" na FolhaonLine: "Kassab gastou mais em publicidade que em obra antienchente."

Pode-se alegar que o orçamento prevê R$ 338,5 milhões para obras de combate às enchentes esse ano, mas vale o que realmente é gasto.
Já foram gastos e pagos, entre janeiro e 15 de março, R$ 19,3 milhões em publicidade. Já em prevenção a cheias foram gastos R$ 17 milhões.

A alegação da prefeitura é que parte dos gastos com publicidade deste ano foi usada justamente na prevenção de enchentes.

terça-feira, 17 de março de 2009

De graça

Pra quebrar um pouco o clima sombrio que tomou conta do blog nos últimos dias, só reproduzindo as tiradas do Tutty Vasques, e ontem ele estava inspirado:

- Virou polêmica na Globo a aparição de Galvão Bueno no último ‘Esporte Espetacular’:
O locutor engordou horrores ou é o rei na barriga que não para de crescer?

- Hugo Chávez saiu de controle de novo.
Vai acabar dando um golpe de estado no próprio governo.

- Essas contusões do Kaká às vésperas de jogos pelas Eliminatórias da Copa já estão causando um certo mal-estar na Seleção.
Pela escala de rodízio do grupo, era a vez do Robinho se machucar.

- O torcedor do Corinthians já tem justificativa para o tropeço do Corinthians diante do Santo André:
“O Timão fica muito leve sem o Ronaldo!”

segunda-feira, 16 de março de 2009

U2 - No Line on the Horizon

Considerada a maior banda do mundo, o U2 dispensa apresentações. Vamos direto ao lançamento de "No Line on the Horizon".
Antes de publicar o que achei do cd, resolvi dar uma olhada por aí pra ver a recepção do disco. Parece que há uma certa unanimidade: não é assim um "Acthung Baby" (considerado uma marco na carreira da banda), mas também não nenhum "Pop", com certeza o que o U2 já fez de pior.
Mas vou discordar da maioria, gostei de "No Line on the Horizon". Discordo também quanto às melhores faixas, se é que isso existe. Pra mim o U2 não leva jeito pra fazer rock "pesado", apesar de "Get on Your Boots", primeira música de trabalho, não ser ruim. A faixa título também não me convenceu, apesar de remeter aos primeiros seus discos.
Seu ponto forte são os acordes pop, executados com extrema competência. É o caso de "Magnificent", e das ótimas "Unknown Caller" e "I'll Go Crazy If I Don't Go Crazy Tonight".
Talvez seja pouco para uma banda do porte do U2, mas é bom.



sexta-feira, 13 de março de 2009

A ponte

"Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol o calor, onde quer que esteja. Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.

Nada me satisfaz, nada me consola, tudo (quer haja sido, quer não) me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero."
Fernando Pessoa

quinta-feira, 12 de março de 2009

A Árvore e o Homem

"De gracejo em gracejo arrasta a alma ferida
Sem constância no amor dentro do coração,
Sente, crespa crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solidão.

Longos dias sem sol. Noites de eterno luto.
Alma cega, perdida à-toa no caminho,
Roto casco de nau desprezado no mar.
E árvore acabará sem nunca dar um fruto
E homem há de morrer como viveu:
Sozinho, sem ar, sem luz, sem Deus. Sem fé, sem pão, sem lar."
Olavo Bilac

terça-feira, 10 de março de 2009

Curiosidade

"Algumas simpatias tive que, com auxílio meu, poderia - pelo menos talvez - ter convertido em amor ou afeto. Nunca tive paciência ou atenção do espírito para sequer desejar empregar esse esforço.
A princípio de observar isto em mim, julguei que havia neste caso da minha alma uma razão de timidez. Mas depois descobri que não havia; havia um tédio das emoções, diferente do tédio da vida, uma impaciência de me ligar a qualquer sentimento contínuo, sobretudo quando houvesse de se lhe atrelar um esforço prosseguido. Para quê? Tenho a sutileza bastante, o tato psicológico suficiente para saber o “como”; o “como do como” sempre me escapou. Assim me sucedeu nas emoções como me sucede na inteligência, e na vontade mesma, e em tudo quanto é vida.

Mas daquela vez em que uma malícia da oportunidade me fez julgar que amava, e verificar deveras que era amado, fiquei, primeiro, estonteado e confuso, como se me saíra uma sorte grande em moeda inconvertível. Fiquei, depois, porque ninguém é humano sem o ser, levemente envaidecido; esta emoção, porém, que pareceria a mais natural, passou rapidamente. Sucedeu-se um sentimento difícil de definir.
Tardei em perceber a que vinha um sentimento aparentemente tão pouco justificado pela sua causa. O amor a ser amado deveria ter-me aparecido. Deveria ter-me envaidecido de alguém reparar atentamente para a minha existência como ser-amável. Mas, à parte o breve momento de real envaidecimento, em que todavia não sei se o pasmo teve mais parte que a própria vaidade, a humilhação foi a sensação que recebi de mim. Senti que me era dada uma espécie de prêmio destinado a outrem - prêmio, sim, de valia para quem naturalmente o merecesse.

Compreendi então uma frase de Chateaubriand que sempre me enganara por falta de experiência de mim mesmo. Diz Chateaubriand, figurando-se em René, “on le fatigait en l’aimant” (amarem-o cansava-o). Conheci, com pasmo, que isto representava uma experiência idêntica à minha, e cuja verdade portanto eu não tinha o direito de negar.
A fadiga de ser amado, de ser amado deveras! A fadiga de sermos o objeto do fardo das emoções alheias! A fadiga de se nos tornar a existência uma coisa dependente em absoluto de uma relação com um sentimento de outrem! A fadiga de, em todo o caso, ter forçosamente que sentir, ter forçosamente, ainda que sem reciprocidade, que amar um pouco também!
Passou de mim, como até mim veio, esse episódio na sombra. Hoje não resta dele nada, nem na minha inteligência, nem na minha emoção. Não me trouxe experiência alguma que eu não pudesse ter deduzido das leis da vida humana cujo conhecimento instintivo albergo em mim porque sou humano. Não me deu nem prazer que eu recorde com tristeza, ou pesar que eu lembre com tristeza também. Tenho a impressão de que foi uma coisa que li em algum lugar, um incidente sucedido a outrem, novela de que li metade, e de que a outra metade faltou, sem que me importasse que faltasse, pois até onde a li estava certa, e, embora não tivesse sentido, tal era já que lhe não poderia dar sentido a parte faltante, qualquer que fosse o seu enredo.

Não é natural que a vida me traga outro encontro com as emoções naturais. Quase desejo que apareça para ver como sinto dessa segunda vez, depois de ter atravessado toda uma extensa análise da primeira experiência. É possível que sinta menos; é também possível que sinta mais. Se o Destino o der, que o dê. Sobre as emoções tenho curiosidade. Sobre os fatos, quaisquer que venham a ser, não tenho curiosidade alguma."
Fernando Pessoa

segunda-feira, 9 de março de 2009

Todo sentimento

Preciso não dormir
Até se consumar o tempo da gente
Preciso conduzir um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente

Pretendo descobrir no último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez

Prometo te querer até o amor cair doente
Prefiro então partir, a tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente

Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada, nada aconteceu
Apenas seguirei como encantado ao lado seu.




p.s.: "sob influência"

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sonhamos

"Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
Colhe rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?"
Fernando Pessoa

segunda-feira, 2 de março de 2009

Enya - Watermark

Um clássico!
Enya não conseguiu fazer outro cd que chegasse ao nível desse, que é de 1988. Os seguintes parecem paródias tentando imitar o original.
O carro chefe é a conhecida "Orinoco Flow", mas todas as faixas são ótimas.

"Exile", por exemplo, faz parte de umas das minhas cenas preferidas no cinema. Em "L.A. Story", quando Steve martin, circunspecto, pensa alto: "Porque é que a gente nem sempre reconhece o momento em que o amor começa, mas sempre sabe quando termina?"
Uma outra lembrança é de assistir um pôr de sol no rio Araguaia, vendo o rio passar e imaginando o som de "River", com o perdão do trocadilho.
Comprei esse cd (LP ainda) em '92, e a agulha do velho "3em1" sofreu, de um lado e de outro do disco. Costumava escutá-lo no quintal de casa, à noite, olhando o céu. Era uma mistura de angútia e paz, se é que isso é possível.

Nunca mais fui o mesmo depois de ouvir esse cd. Talvez tenha ficado ainda mais intimista, não sei... mas a primeira vez que ouvi Watermark fiquei estarrecido.

Download: Enya - Watermark (100Mb)