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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Você é o que voce lê

Na infância, acho que li praticamente todos os livros que havia em casa, e não eram poucos. Perdia o sono à noite e buscava contos de fadas, atlas geográficos, tratados médicos, cursos de inglês, romances, até a Barsa.
Não me considero um leitor acrítico, que lê e aceita tudo mas é interessante observar a relação entre o período literário e seu reflexo prático, que muitas vezes mostra que, conforme a personalidade de cada um, há estilos mais indicados que outros. No meu caso, talvez devesse ter continuado lendo somente ficção, poesia e livros de arte.

Enquanto estava na faculdade e lia biografias de CEO's como Jack Welch (Jack Definitivo) e Lou Gerstner (Quem Disse que os Elefantes Não Dançam?), por exemplo, me contentava em progredir e obter algum sucesso na vida corporativa. Mesmo O Monge e o Executivo contribuiu com essa linha de pensamento.
O primeiro sinal da mudança de paradigma foi a troca da assinatura da Você S.A pela da Exame. Mas foi com a leitura de Pai Rico Pai Pobre que achei poderia mais, que poderia sonhar mais alto e chegar mais próximo, não do meu estilo pessoal, mas do modo de vida que gostaria de ter. E afinal de contas não é isso que nos dizem, pra acreditar no que se quer?  Fui em frente.
Efeito semelhante teve Qual é a Tua Obra?, de Mario Sergio Cortella, que questionava o legado que cada um pretende deixar. Em função disso então vieram posteriormente O Segredo de Luiza, Publicidade na Internet, e Marketing de Varejo. Todos jogando sementes em terra árida.
Tivesse lido somente livros de culinária, ao invés de empreendedorismo, os efeitos teriam sido bem melhores e os prejuízos resumidos a contas mais caras no supermercado.
Pausa.
Reaparecem livros como a biografia de Eric Clapton; o filosófico Aprendendo a Viver, de Sêneca; os divertidos Veríssimo; as dicas de 1001 Discos Para se Ouvir Antes de Morrer; e mais recentemente Cartas a Théo, de Van Gogh.
Temas como a música, a filosofia, a arte... esses sim eu recomendo, seus efeitos colaterais limitam-se à caverna.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Vincent Van Gogh - Cartas a Théo

Comecei a ler Cartas a Théo há um bom tempo, quando ganhei o livro de presente. Até hoje li pouco mais da metade e a demora em concluí-lo vem do tom absolutamente melancólico do conteúdo das cartas escritas pelo pintor a seu irmão entre julho de 1873 e 1890, ano de sua morte.

Exceto nas passagens onde o autor descreve seus métodos e a forma como vê e interpreta a paisagem, quando ele se mostra uma pessoa entusiasmada e disposta, o livro segue como no trecho abaixo.

"...Seja na figura, seja na paisagem, eu gostaria de exprimir não algo sentimentalmente melancólico, mas uma profunda dor. Em suma, quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente delicadamente. Apesar da minha suposta grosseria, voce me entende? Ou precisamente por cauda dela.
O que é que eu sou aos olhos da maioria - uma nulidade ou um homem excêntrico ou desagradável -, alguém que não tem uma situação na sociedade ou que não a terá; enfim, pouco menos que nada.
Bom, suponha que seja exatamente assim, então eu gostaria de mostrar por minha obra o que existe no coração de tal excêntrico, de tal nulidade.
Esta é a minha maior ambição, que está menos fundada no rancor que no amor "apesar de tudo", mais fundada num sentimento de serenidade que na paixão. Ainda que frequentemente eu esteja na miséria, há contudo em mim uma harmonia e uma música calma e pura. Na mais pobre casinha, no mais sórdido cantinho, vejo quadros e desenhos. E meu espírito vai nesta direção por um impulso irresistível."


No caso de Van Gogh talvez seja melhor conhecer a tristeza apenas pela pintura.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Os Espiões

O humor irônico, a leveza do texto, a metalinguagem sobre a própria história e a paródia dos livros policiais. Os elementos cruciais que caracterizam o estilo de Luis Fernando Veríssimo estão todos aí, e fazem de "Os Espiões" é um livro muito agradável, de leitura fácil e atrativa.

Como em todo romance policial de qualidade, a trama noz induz a prosseguir na leitura cada vez mais.
Ao longo de todo o livro fiquei com a impressão de que o autor estava apenas se divertindo com o leitor, sinalizando à direita para seguir pela esquerda. Passei todo o tempo esperando um final surpreendente, o que no caso dele seria não acontecer nada de mirabolante. Mesmo porquê o melhor do livro nem é a sua conclusão, mas o seu desenvolvimento. Piadas sutis espalhadas pela maioria das páginas.
É verdade que ele já fez coisas muito mais interessantes mas ler Os Espiões é uma ótima forma de se divertir.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A Cabana

Andei um bom tempo sem absolutamente nenhuma paciência para ler ficção. Um enfado tomava conta tão logo passasse a primeira página. Não deixei de gostar de ler, mas é como se cada texto tivesse apenas uns poucos parágrafos para provar que pode me ser útil.

Nesse últimos dias, presenteado com alguns livros consegui romper esse ciclo e a ansiedade que me persegue há algum tempo e que me fazia pensar que qualquer coisa que não tenha uma aplicação prática imediata é perda de tempo.

Li o tão comentado "A Cabana". Confesso que a impressão inicial foi péssima, pela história que me contavam eu imaginava algo completamente diferente. Uma conversa entre Deus e o pai que perdeu a filha e o responsabiliza, como aparece no livro, mostra a visão limitada que tenho sobre as coisas.
A forma como Deus se apresentou, o modo como o autor distribuiu sua doutrina ao longo do livro me deixaram frustrado. Do meio pra frente o livro melhora e trabalha com algumas metáforas interessantes. Talvez seja eu que tenha melhorado do livro pra frente, não sei.
Há diversas interpretações possíveis para o que se passa na história. Cada um terá a sua conforme sua crença.
Vale a leitura.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Luís Fernando Veríssimo - O Mundo é Bárbaro

Sempre dou boas (e muitas) risadas lendo os livros de Luis Fernando Veríssimo; seu humor fino está escondido atrás de cada ironia, perfeitamente colocadas ao longo do texto.
Com O Mundo é Bárbaro não foi diferente. Cada crônica não ocupa mais que duas páginas, o que torna a leitura muito agradável e que possibilita lê-lo aos poucos, sem compromisso com a sequência.
São crônicas escolhidas entre as melhores que o autor escreveu nos últimos oito anos; elas discutem a ascensão chinesa, a guerra contra o terror, a candidatura de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos (ainda não havia sido eleito) e o passado e o futuro do Brasil e da América Latina.

Veríssimo permanece fiel a seu estilo, casando assuntos que dizem respeito a toda a humanidade com outros tirados da banalidade cotidiana.
Mas apesar disso esse definitivamente não é um livro de humor. Em quase todos os textos estão agudas críticas sociais.
Veja trecho de "Produtos do meio":
Todo brasileiro recebe, desde que nasce, uma educação em descaso. Nas privações que sofre ou vê sofrerem à sua volta, tem um curso prático e permanente de desprezo pela vida.
Um Estado oligárquico que desdenha dos direitos básicos de mais da metade da sua população é um Estado criminoso. Uma elite que constrói simultaneamente uma economia de fantasia para ela e uma das sociedades mais desiguais do planeta para a maioria é uma elite serial killer.
Nos dois casos, são péssimos exemplos para as crianças.


quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Luis Fernando Veríssimo - Banquete com os deuses

Tô terminando de ler um presente de aniversário: Banquete com os deuses, de Luis Fernando Veríssimo.
Como todos os seus livros, tem texto sutil e bem humorado. Porém não conta com a mesma graça de livros como "As mentiras que os homens contam" e "O melhor das comédias da vida privada". Talvez até pelos temas abordados. Mas de forma alguma pode ser considerado um livro chato.
Em compensação dá uma aula de conhecimento em cinema, literatura e música. É a visão do autor sobre esses três assuntos e aborda obras de outras épocas, o que dificulta um pouco a sua compreensão. Nem por isso o livro deixa de ser interessante, e serve como referência pra quem quer conhecer alguns clássicos.
Não é uma leitura muito fácil, são necessários alguns conhecimentos prévios, mas nada complicado para quem já gosta desses assuntos.
Como não conheço ninguém que não goste de Luiz Fernando Veríssimo, recomendo. E não é só pra ler nos fins de semana sem programa não.
Vale a pena.